Atualizado a 11/10/2026 Açúcar no Sangue 18 guias · fontes oficiais · Secções ↓
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Como confirmamos o que publicamos

Um valor de glicemia, neste site, vem de uma norma da Direção-Geral da Saúde. O efeito de uma substância vem de revisões e ensaios publicados. Um preço vem de uma loja identificada, numa data escrita ao lado. Esta página percorre cada uma dessas origens, mostra o que acontece quando dois documentos oficiais não dizem o mesmo e explica quem consegue, e quem não consegue, fazer uma página mudar.


Quem consegue fazer mudar uma página?

Um leitor com um documento consegue. Uma comissão não.

Cada página exibe duas datas: a de publicação e a da revisão mais recente. A segunda muda quando sai uma revisão sistemática nova, quando uma norma é substituída, quando um preço deixa de bater certo ou quando alguém nos demonstra um erro. Para isso basta escrever para cartas@acucarnosangue.com ou usar a página de contactos, com o documento que desmente a frase. Tendo razão, corrige-se o texto e a data de revisão passa a mostrá-lo. Uma página de saúde que nunca é corrigida não merece confiança: quer dizer que ninguém lá volta.

Há ligações que geram comissão, nas condições descritas no aviso legal, e nenhuma conclusão se mexe por causa delas. A prova está à vista: os resultados nulos da canela e do ácido alfa-lipoico estão publicados nas mesmas páginas onde existem ligações comerciais, incluindo a comparação de suplementos para diabetes. Se um produto com ligação comercial vier a merecer avaliação favorável, será porque as referências a sustentam, e essas referências ficam ao lado, para conferir. A razão de ser do projeto está em quem somos.

Medicamento, suplemento ou cápsula sem dono: o que muda no texto?

Muda quase tudo, porque são três categorias jurídicas distintas e cada uma deixa ao leitor um grau de proteção diferente.

Medicamento. Passou pela avaliação do Infarmed ou da EMA e tem folheto informativo aprovado. A metformina, por exemplo, é sujeita a receita médica em Portugal, e o folheto indica doses, contraindicações e efeitos adversos com frequências conhecidas.

Suplemento alimentar. Para a lei é comida: entra no mercado sem que ninguém tenha verificado se faz o que promete, rege-se pelas normas dos géneros alimentícios e só pode usar as alegações que a União Europeia autorizou.

Produto sem responsável identificável. Vendido em páginas de revenda, sem empresa, sem morada e sem composição com miligramas. Numa verificação de agosto de 2026, um produto deste tipo era promovido a «39 € em vez de 78 €» sem histórico que sustentasse o preço anterior, e numa das páginas encontradas o texto promocional estava alojado no domínio de um centro hospitalar público. Num caso assim, o alerta abre a página, à frente de qualquer comparação.

Quando uma autoridade estrangeira se pronuncia sobre uma marca também vendida em Portugal, publicamos o que essa autoridade disse, com data e ligação, e também o limite do que disse. Um alerta de outro país refere-se ao canal de venda e às alegações observadas lá. Não prova, por si só, que a versão portuguesa faça as mesmas afirmações, e as duas coisas ficam escritas na mesma página.

Que documento decide um valor de glicemia em Portugal?

A norma da DGS, citada pelo número e pela data. Escondê-la atrás de «segundo os especialistas» tiraria ao leitor a possibilidade de a abrir e conferir.

Documento Assunto Data
Norma n.º 002/2011 Diagnóstico e classificação da diabetes mellitus 14.01.2011
Norma n.º 003/2011 Diagnóstico sistemático da nefropatia diabética 31.01.2011
Norma n.º 016/2018 Rastreio da retinopatia diabética 13.09.2018

Os critérios de diagnóstico que usamos são de 2011 e continuam a ser a referência nacional publicada. Dizemos que são antigos em vez de o disfarçar; se a DGS emitir revisão posterior, o documento é substituído, os números mudam nas páginas afetadas e a data de atualização mostra a troca.

O caso mais visível de documentos oficiais em desacordo está no limiar da glicemia de jejum. A Norma n.º 002/2011 trata como anomalia da glicemia de jejum os valores entre 110 e 125 mg/dl. A SPEDM, alinhada com os critérios norte-americanos, situa a pré-diabetes a partir de 100 mg/dl. A faixa de 100 a 109 mg/dl fica assim classificada de duas maneiras, e é por isso que dois médicos podem comentar a mesma análise em termos diferentes. Publicamos as duas leituras. Escolher uma e calar a outra seria mais simples de escrever e menos verdadeiro.

Porque é que cada preço traz uma loja e um dia?

Porque só entra no site um valor que alguém da redação foi ver a uma farmácia ou loja identificada, e o dia dessa consulta fica escrito ao lado. Não copiamos preços de outros artigos nem calculamos «preços médios» que não existem em nenhuma prateleira.

Na verificação de 25 de agosto de 2026, o medidor Accu-Chek Instant estava a 24,65 € numa farmácia online, o Accu-Chek Guide a 33,10 € noutra, e uma caixa de 60 comprimidos de metformina genérica a 2,83 €. No mesmo dia, o OneTouch Verio tinha preço publicado mas aparecia esgotado, o Contour XT estava sem stock e a Wells não listava nenhum glucómetro no seu site. Daí o aviso para confirmar sempre junto de quem vende.

Nas páginas de material de autovigilância, a comparticipação do Estado vem antes do preço de retalho: até 85% do preço máximo das tiras-teste e até 100% no caso de agulhas, seringas e lancetas, para beneficiários do SNS com diabetes. Comparar prateleiras sem dizer isto seria enganar por omissão.

O que fazemos com o rótulo e com o certificado de qualidade?

Citamos o rótulo entre aspas, como declaração do fabricante, e nunca como facto verificado.

Nesta categoria é frequente o rótulo não dizer quantos miligramas de cada ingrediente traz a cápsula. Quando é esse o caso, fica escrito: sem miligramas declarados não há comparação possível com os ensaios publicados, e essa impossibilidade acaba por ser o dado mais útil da página para quem vai pagar.

O certificado é outro papel que se apresenta muitas vezes como se fosse prova de eficácia. Descreve o ambiente de fabrico (normas ISO, boas práticas, controlo microbiológico do lote). Um ensaio clínico descreve o que acontece no organismo. Um produto pode ter fabrico impecável sem qualquer prova de que serve para alguma coisa.

Porque neste site não se lê «baixa o açúcar»

Porque, aplicada a um alimento ou a um suplemento, essa frase está regulada em toda a União Europeia.

O Regulamento (CE) n.º 1924/2006 regula as alegações de saúde usadas na comunicação comercial de alimentos e suplementos; as alegações relativas a plantas ainda em avaliação («on hold») são, em regra, proibidas nessa comunicação, salvo quando cumprem as condições do regime transitório aplicável. O acórdão C-386/23, de 30 de abril de 2025 confirma essa ressalva, mas o estado «on hold» não permite concluir, por si só, que um ingrediente ou produto possa ser legalmente vendido ou promovido.

Substância Alegação de saúde na UE Situação
Crómio «Contribui para a manutenção de níveis normais de glicose no sangue» Autorizada — Reg. (UE) 432/2012, parecer EFSA 2010
Gymnema sylvestre — Pedido suspenso desde 2012
Berberina — Pedido suspenso desde 2012
Canela — Pedido suspenso desde 2012
Momordica charantia — Pedido suspenso desde 2012

O que escrevemos é o resultado do estudo, não uma promessa sobre a cápsula. Por exemplo: «numa meta-análise de 37 ensaios aleatorizados, com 3 048 doentes com diabetes tipo 2, a berberina reduziu a hemoglobina glicada em 0,63 pontos percentuais face ao controlo». Citar esse estudo não transforma, por si só, uma alegação em alegação permitida numa comunicação comercial. O contexto conta: o Regulamento (CE) n.º 1924/2006, considerando 4 e artigo 1.º, n.º 2 distingue a comunicação comercial da informação científica ou de imprensa sem caráter comercial.

O crómio é a exceção do grupo. Tem alegação autorizada, e essa formulação pode ser citada tal como está no regulamento, com a modéstia do próprio texto: «contribui para», e não «trata».

Canela, ácido alfa-lipoico e crómio: o que os números obrigam a escrever

Obrigam a escrever «não resultou» quando não resultou, e a escrever o tamanho exato do efeito quando resultou pouco. É precisamente o dado que esta categoria comercial costuma esconder.

Canela. A revisão Cochrane de 2012 (Leach e Kumar) reuniu dez ensaios aleatorizados, 577 participantes com diabetes tipo 1 e tipo 2, doses médias de 2 g por dia durante cerca de 11 semanas. A canela não foi mais eficaz do que o placebo, do que outra medicação ativa ou do que nenhum tratamento a baixar a glicose ou a hemoglobina glicada.

Ácido alfa-lipoico. A revisão Cochrane de 2024 (Baicus e colegas) analisou três ensaios controlados por placebo, 816 adultos com idade média de 57,8 anos e tratamento de seis meses ou mais. Não há diferença clara demonstrada face ao placebo nos sintomas de neuropatia periférica, com certeza da evidência entre moderada e baixa.

Crómio. As meta-análises apontam reduções de hemoglobina glicada de 0,55 a 0,71 pontos percentuais face ao controlo: um efeito real, pequeno, medido em pessoas que mantinham o resto do tratamento. Fica escrito o número e o intervalo, não um adjetivo.

O que nunca entra como prova?

Nada que não se possa abrir e conferir, nem nada escrito por quem lucra com a conclusão.

Uma glicemia que «desceu» num testemunho não entra, nem um estudo de que só se conhece o título. Em concreto, ficam de fora a palavra do fabricante sobre a eficácia do próprio produto sem estudo publicado, as páginas de venda e os «artigos» que acabam num botão de compra, os relatos de utilizadores que ninguém pode confirmar, as estrelas dadas por quem vende ou recebe comissão, os estudos citados sem revista, ano e autores e os textos pensados para outro país.

Quando a evidência é escassa, contraditória ou inexistente, é isso que fica escrito, ainda que o texto perca apelo.

Resumo: que fonte pesa mais, pergunta a pergunta

Depende do que se quer saber. Para «o que é normal em Portugal», manda o documento oficial português; para «isto tem efeito?», manda a evidência clínica agregada; para «quanto custa?», a loja.

  1. Normas e orientações da DGS: critérios de diagnóstico, periodicidade dos rastreios e percurso do doente em Portugal.
  2. Revisões sistemáticas e meta-análises (Cochrane e revisões indexadas na PubMed): reúnem os ensaios existentes sobre uma pergunta, em vez de escolher os convenientes.
  3. Ensaios clínicos aleatorizados: lidos um a um quando falta revisão sobre o tema ou um dado concreto (dose administrada, duração, número de participantes).
  4. Reguladores: Infarmed para autorização, folhetos e alertas em Portugal; EMA para avaliações europeias de medicamentos; EFSA para alegações de saúde de alimentos e suplementos.
  5. Sociedades científicas e serviços públicos portugueses: SPD, SPEDM, APDP e SNS 24, para prática corrente, terminologia e organização de cuidados.
  6. Fontes de mercado: farmácias, parafarmácias e retalhistas portugueses, só para preço, embalagem e disponibilidade. Nunca para eficácia.

Quem vende não é fonte sobre aquilo que vende: o rótulo prova apenas o que o fabricante declarou.


Autor: Redação Açúcar no Sangue · quem somos

Nota clínica. O Açúcar no Sangue reúne informação para leitura, não para tratamento. Alvos de glicemia, medicação e exames são decididos pelo médico que o acompanha e conhece o seu caso.

Quem paga este trabalho. Algumas lojas para onde remetemos podem pagar à redação uma fatia do que venderem a quem chega por essas ligações. O leitor paga na caixa o mesmo que pagaria sem nós. Uma ligação comercial nunca empurrou um resultado nulo para positivo: a canela e o ácido alfa-lipoico continuam com os resultados que os estudos lhes deram.

Nomes de marca. Glicómetros, tiras, medicamentos e suplementos aparecem aqui pelo nome comercial, que é de quem o registou. Nenhum fabricante ou vendedor nos contratou ou patrocina, e não falamos em nome de nenhum deles.

Fontes utilizadas 15

DocumentoFonte
Norma DGS n.º 002/2011, «Diagnóstico e Classificação da Diabetes Mellitus»normas.dgs.min-saude.pt
Norma DGS n.º 003/2011, «Diagnóstico Sistemático da Nefropatia Diabética»normas.dgs.min-saude.pt
Norma DGS n.º 016/2018, «Rastreio da Retinopatia Diabética»normas.dgs.min-saude.pt
SPEDM, critérios de pré-diabetes (jejum 100–125 mg/dl, HbA1c 5,7–6,4%)spedm.pt
Revisão Cochrane 2012 sobre canela na diabetes (Leach MJ, Kumar S)cochranelibrary.com
Revisão Cochrane 2024 sobre ácido alfa-lipoico na neuropatia diabética (Baicus C et al.)pubmed.ncbi.nlm.nih.gov
Meta-análise de crómio e hemoglobina glicada (25 ensaios; −0,55 pontos percentuais)onlinelibrary.wiley.com
Parecer EFSA sobre o crómio, EFSA Journal 2010;8(10):1732efsa.onlinelibrary.wiley.com
EFSA, alegações de saúde do artigo 13 e situação das plantasefsa.europa.eu
Folheto informativo aprovado de Metformina toLife (MSRM, doses, efeitos adversos)towapharmaceutical.pt
Preço de metformina genérica (Generis 500 mg, 60 comprimidos), verificado a 25.08.2026farmaciaclabel.pt
Preço do medidor Accu-Chek Instant, verificado a 25.08.2026farmaciaacasa.com
Preço do medidor Accu-Chek Guide, verificado a 25.08.2026docmorris.pt
Meta-análise de berberina e HbA1c (37 ECR, 3 048 doentes; Frontiers in Pharmacology, 2022)pmc.ncbi.nlm.nih.gov
SNS, comparticipação de dispositivos para autovigilância da diabetes (tiras até 85%, agulhas e lancetas até 100%)sns.gov.pt
Autoria: Redação Açúcar no Sangue 11 de outubro de 2026