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Complicações da diabetes: olhos, rins e nervos

Números desta página

1× por ano rastreio da retinopatia na diabetes tipo 2, desde o diagnóstico
5 anos depois do diagnóstico começa o rastreio ocular na diabetes tipo 1
2 retinografias por olho no exame de rastreio
3–4 meses espera antes de repetir uma microalbuminúria positiva
816 participantes da revisão que não encontrou efeito do ácido alfa-lipoico

Resposta curta: as complicações crónicas da diabetes atingem sobretudo os vasos pequenos de três órgãos — a retina, o rim e os nervos periféricos — e todas têm uma coisa em comum: começam sem sintomas. É por isso que Portugal tem normas que obrigam a rastreá-las por calendário, e não à espera de queixas. Quem faz os rastreios apanha-as na fase em que ainda há muito a fazer.

Uma ferida no pé com estes sinais é urgência hospitalar
  • febre acima de 38 °C ou temperatura abaixo de 36 °C
  • pulsação acima de 90 batimentos por minuto ou respiração acima de 20 ciclos por minuto
  • necrose, gangrena, infeção com progressão rápida ou suspeita de envolvimento do osso

Estes são os critérios internacionais de infeção grave do pé. Não há aqui margem para esperar pela consulta marcada.

Ver bem não é prova de que a retina está bem

A retinopatia diabética não costuma dar sintomas percetíveis nas fases iniciais. É exatamente por isso que o rastreio é feito mesmo sem queixas de visão: quando a visão começa a falhar, a lesão dos vasos da retina já vem de trás. «Vejo bem, não preciso de ir» é o raciocínio que mais atrasa o diagnóstico.

Quais são as complicações crónicas da diabetes?

As complicações crónicas resultam do dano que a glicemia elevada mantida ao longo dos anos provoca nos vasos sanguíneos. Nos vasos pequenos, três órgãos concentram o problema:

Órgão Complicação Como se deteta cedo
Retina Retinopatia diabética retinografia anual, mesmo sem sintomas
Rim Nefropatia diabética albuminúria, creatinémia e TFG anuais
Nervos periféricos Neuropatia diabética exame dos pés e sintomas de dormência ou queimadura

O pé diabético é, em rigor, o resultado combinado de duas destas vias — a lesão dos nervos e a má circulação — e tem página própria, porque tem norma própria e critérios de urgência próprios.

O que a diabetes faz aos olhos?

A retinopatia diabética é o dano progressivo dos pequenos vasos da retina, causado por glicemia elevada mantida ao longo do tempo.

Os vasos tornam-se permeáveis, entopem ou proliferam de forma anómala. A retina — a camada que converte a luz em sinal nervoso — deixa de funcionar bem nas zonas afetadas.

Nas fases iniciais não há sintomas percetíveis. Esta é a característica clínica mais importante da doença e a razão de todo o programa de rastreio.

A retinopatia diabética é uma das principais causas de cegueira evitável em adultos em idade ativa nos países desenvolvidos.

A palavra a sublinhar é evitável. O rastreio existe porque a deteção precoce muda o desfecho.

De quanto em quanto tempo se faz o rastreio da retinopatia?

A norma nº 016/2018 da Direção-Geral da Saúde define calendários diferentes conforme o tipo de diabetes:

Situação Quando começa Periodicidade
Diabetes tipo 2 desde o diagnóstico anual
Diabetes tipo 1 5 anos após o diagnóstico anual a partir daí
Gravidez ou intenção de engravidar antes de engravidar ou, no máximo, no 1.º trimestre definida pelo oftalmologista

O exame de rastreio consiste em duas retinografias por olho: uma centrada na mácula, outra na papila. São obtidas com retinógrafo de câmara não midriática e executadas por técnico treinado.

Câmara não midriática quer dizer, na prática, que o exame dispensa em regra a dilatação da pupila com gotas.

O caso da gravidez merece nota à parte: as mulheres com diabetes que estão grávidas ou a planear engravidar são encaminhadas para oftalmologia com prioridade, e a periodicidade das reavaliações seguintes não é fixa — é decidida pelo oftalmologista conforme o quadro clínico.

Como se deteta a lesão dos rins?

Pela mesma lógica de calendário. A norma nº 003/2011 da DGS estabelece rastreio anual da nefropatia diabética: para a diabetes tipo 2 desde o diagnóstico, para a diabetes tipo 1 a partir dos 5 anos após o diagnóstico.

O rastreio tem três componentes:

  • doseamento de albuminúria ou proteinúria
  • doseamento de creatinémia
  • avaliação anual da taxa de filtração glomerular (TFG)

Há ainda uma regra de confirmação que evita conclusões precipitadas: se a tira-teste de microalbuminúria for positiva, deve repetir-se com outra tira-teste 3 a 4 meses depois, antes de se confirmar seja o que for.

O que pode falsear uma análise de microalbuminúria

A própria norma da DGS enumera as situações em que o doseamento não deve ser feito, porque a albuminúria pode estar elevada sem que exista nefropatia diabética. Nas 24 horas anteriores à recolha:

  • exercício físico moderado ou intenso
  • infeção urinária
  • febre
  • insuficiência cardíaca congestiva
  • descompensação da glicemia
  • hipertensão arterial não controlada

Isto explica uma situação que assusta muita gente: um valor alterado numa análise feita no dia a seguir a uma ida ao ginásio, ou durante uma infeção urinária, pode não significar doença renal nenhuma. Um resultado é um ponto, não um diagnóstico.

Quais são os primeiros sintomas da neuropatia diabética?

Dormência, formigueiro, picadas ou sensação de queimadura nos pés e nas pernas, quase sempre piores à noite.

Os pés são afetados primeiro. E a evolução é insidiosa: pode decorrer durante anos sem sintomas percetíveis.

O que torna a neuropatia perigosa não é o incómodo. É o silêncio que vem a seguir.

A perda de sensibilidade à dor e à temperatura significa que uma ferida deixa de doer e, por isso, deixa de ser notada. É a mesma perda que está na origem do pé diabético — e a razão pela qual a inspeção diária dos pés substitui a dor como sistema de alarme.

Qual é o tratamento da neuropatia diabética dolorosa?

A guideline britânica NICE sobre dor neuropática (CG173) manda oferecer, como tratamento inicial, uma escolha entre quatro fármacos: amitriptilina, duloxetina, gabapentina ou pregabalina.

Se o primeiro não resultar ou não for tolerado, passa-se a um dos três restantes. E assim sucessivamente.

A mesma guideline é explícita sobre a venlafaxina, que aparece em muitos artigos como opção corrente: não deve ser iniciada fora de contexto especializado, salvo indicação de um especialista.

Todos são medicamentos sujeitos a receita médica. A dose, a escolha entre eles e o ajuste ao longo do tempo são decisões clínicas, dependentes de outras medicações e de outras doenças que a pessoa tenha. Não damos doses nesta página, e explicamos mais abaixo porquê.

O ácido alfa-lipoico funciona para a neuropatia diabética?

A revisão sistemática mais recente não encontrou diferença clara em relação ao placebo. É um resultado desconfortável de escrever, porque o ácido alfa-lipoico é vendido em farmácias e parafarmácias portuguesas como suplemento «para os nervos» — mas é o que os dados mostram.

A revisão Cochrane de 2024 (Baicus C. e colegas) reuniu 3 ensaios clínicos controlados por placebo, com 816 participantes adultos, idade média de 57,8 anos e tratamento de pelo menos 6 meses. Aos 6 meses, não ficou demonstrada diferença clara entre o ácido alfa-lipoico e o placebo na redução dos sintomas de neuropatia periférica diabética. A certeza da evidência foi classificada como moderada a baixa pelo método GRADE.

Há ainda duas ausências que dizem muito: nenhum dos estudos incluídos mediu o efeito na qualidade de vida, e nenhum mediu o efeito nas complicações da neuropatia a longo prazo — que é, precisamente, o que interessaria saber.

O contraste com a secção anterior é o ponto todo desta página. De um lado, fármacos com receita, avaliados em guidelines, com efeitos secundários conhecidos e acompanhamento médico. Do outro, um suplemento de venda livre cuja revisão sistemática mais recente não confirma benefício claro. A diferença entre os dois não é o preço na prateleira — é a evidência por trás.

Feridas e úlceras: a complicação que junta tudo

Uma úlcera no pé é o encontro das três vias: nervos que deixaram de avisar, circulação que deixou de alimentar e uma glicemia que dificulta a cicatrização. É também a complicação com critérios de urgência mais claros e mais fáceis de memorizar.

Dois centímetros de vermelhidão à volta de uma ferida, ou o envolvimento de tendão, músculo ou osso, já definem infeção moderada. Sinais sistémicos — febre, taquicardia, respiração acelerada — definem infeção grave, que é emergência.

Toda a parte prática, incluindo o autoexame diário, a rede de consultas em Portugal e o que a evidência diz sobre calçado, está em pé diabético.

E as manchas na pele?

Alterações de cor da pele estão na lista de sinais a procurar diariamente nos pés: vermelhidão, zonas escuras ou pretas, a par de inchaço, calor localizado, bolhas, feridas indolores e qualquer secreção ou cheiro anómalo. Nos pés, uma mancha nova não é assunto estético — é um achado a comunicar.

Sobre manifestações cutâneas da diabetes noutras zonas do corpo, não temos, nesta data, fonte portuguesa verificada que nos permita publicar descrições e números. Preferimos dizê-lo a preencher a secção com generalidades. Uma mancha ou lesão de pele nova e persistente é motivo para mostrar a um médico, com ou sem diabetes.

O que liga todas estas complicações?

O tempo passado com a glicemia acima do alvo. A retinopatia resulta de glicemia elevada mantida a danificar os vasos da retina; a nefropatia e a neuropatia seguem a mesma lógica noutros tecidos. Nenhuma delas aparece de um dia para o outro e nenhuma delas se resolve com uma cápsula.

O que muda o rumo é conhecido e pouco espetacular: saber os seus valores de glicemia e a sua hemoglobina glicada, fazer os rastreios no calendário que as normas definem e tratar o que aparecer na fase em que ainda é pequeno.

Os calendários são públicos, as suas análises não se leem aqui

Estão descritos os calendários de rastreio que as normas portuguesas definem para a retinopatia e para a nefropatia, o que cada exame inclui, o que pode falsear uma análise, os primeiros sintomas da neuropatia e o que a revisão sistemática mais recente mostra sobre o ácido alfa-lipoico.

O que uma página não faz é ler as suas análises e escolher o seu tratamento. Um valor de albuminúria, uma retinografia ou a decisão sobre um fármaco para a dor neuropática interpretam-se com o processo clínico à frente — e isso é do médico que o segue.

Porque publicamos que um suplemento não resultou

Seria mais simples escrever que o ácido alfa-lipoico «pode ajudar» e não contrariar ninguém. Escrevemos o contrário porque a revisão Cochrane de 2024, com 816 participantes, não demonstrou diferença clara face ao placebo, e omitir isso numa página sobre neuropatia seria deixar alguém gastar dinheiro e, pior, tempo.

Aplicamos a mesma régua a todos os produtos de que falamos neste site, incluindo aqueles a que ligamos noutras páginas. Quando a evidência é fraca, dizemos que é fraca. Um site que só encontra boas notícias sobre o que vende não é um site de informação.

Fontes utilizadas


Autor: Redação Açúcar no Sangue · como trabalhamos Publicado: 25 de agosto de 2026 · Última atualização: 25 de agosto de 2026

Nota de saúde. Esta página descreve rastreios e evidência publicada. Não interpreta os seus exames nem decide tratamentos — isso pertence a quem o acompanha clinicamente.

Marcas mencionadas. Os nomes de medicamentos e suplementos citados pertencem aos respetivos titulares. A redação não tem vínculo com nenhum fabricante nem é paga por qualquer um deles para escrever o que escreve.

Perguntas frequentes

A retinopatia diabética dá sintomas?

Nas fases iniciais, normalmente não. É por isso que o rastreio por retinografia é feito por calendário e não à espera de queixas de visão. Quando a visão começa a alterar-se, a lesão dos vasos da retina já está instalada há algum tempo.

Quem tem diabetes tipo 1 faz o rastreio ocular desde o diagnóstico?

Não. A norma da DGS prevê a primeira avaliação 5 anos após o diagnóstico na diabetes tipo 1, e anual a partir daí. Na diabetes tipo 2, o rastreio começa logo no diagnóstico e repete-se todos os anos.

O que é a microalbuminúria e porque é preciso repetir a análise?

É a presença de pequenas quantidades de albumina na urina, um sinal precoce de lesão renal. Repete-se porque muitas situações banais a elevam sem haver doença renal — exercício intenso, febre, infeção urinária, descompensação da glicemia ou tensão arterial não controlada nas 24 horas anteriores. A norma manda repetir a tira-teste 3 a 4 meses depois.

Que exames avaliam os rins de quem tem diabetes?

Doseamento de albuminúria ou proteinúria, creatinémia e avaliação anual da taxa de filtração glomerular. É o conjunto definido pela norma nº 003/2011 da Direção-Geral da Saúde.

A neuropatia diabética tem tratamento?

Para a dor neuropática, a guideline NICE indica como tratamento inicial uma escolha entre amitriptilina, duloxetina, gabapentina e pregabalina, com troca para outro da lista se o primeiro não resultar ou não for tolerado. A venlafaxina não está entre as opções a iniciar fora de contexto especializado. São todos medicamentos com receita médica, ajustados caso a caso.

O ácido alfa-lipoico vale a pena para os nervos?

A revisão Cochrane de 2024, com 3 ensaios controlados por placebo e 816 participantes tratados durante pelo menos 6 meses, não demonstrou diferença clara face ao placebo nos sintomas de neuropatia periférica diabética, com certeza da evidência classificada de moderada a baixa.

Estas complicações aparecem sempre?

Não são inevitáveis. Todas partem do mesmo mecanismo — glicemia elevada mantida ao longo do tempo a danificar vasos e nervos — e todas têm rastreios definidos para as apanhar antes de darem sintomas.

Uma ferida que não sara é sinal de quê?

De que os três problemas se juntaram: nervos que não avisam, circulação insuficiente, cicatrização dificultada.

Uma ferida no pé que não evolui bem tem critérios claros de gravidade e não se gere em casa — ver pé diabético.

Autor: Redação Açúcar no Sangue 25 de agosto de 2026