Resposta curta: hipoglicemia é glicemia igual ou inferior a 70 mg/dl e trata-se de imediato — numa pessoa consciente, com 15 g de açúcar de absorção rápida, esperar 15 minutos e voltar a medir, repetindo até chegar perto dos 100 mg/dl. Se a pessoa estiver inconsciente ou não reagir, não se dá nada pela boca e liga-se 112. A hiperglicemia é o extremo oposto, instala-se devagar — sede, boca seca, urinar muito, cansaço, visão turva, dor de cabeça — e torna-se emergência quando aparecem vómitos persistentes, respiração muito rápida e profunda ou confusão, sinais de cetoacidose diabética.
Sinais de emergência: parar de ler e agir
🔴 Pessoa inconsciente ou que não reage. Não dar nada a comer nem a beber, pelo risco de engasgamento. Ligar 112 imediatamente — a chamada é encaminhada para o INEM. É a instrução do próprio Instituto Nacional de Emergência Médica.
🔴 Vómitos persistentes, respiração muito rápida e profunda, dor abdominal e confusão com glicemia alta: quadro compatível com cetoacidose diabética, em que o corpo, sem insulina suficiente, queima gordura e acumula cetonas. Vai com desidratação, batimento cardíaco acelerado e hálito adocicado invulgar. Urgência hospitalar.
🔴 Hipoglicemia que não melhora depois de dois ciclos completos de 15 g de açúcar com 15 minutos de espera: pedir ajuda em vez de repetir indefinidamente. Se houver alteração do estado de consciência pelo caminho, 112.
🔴 Quem toma metformina e sente vómitos, dor abdominal com cãibras musculares, cansaço extremo, dificuldade em respirar, descida da temperatura corporal e do batimento cardíaco: suspeita de acidose láctica — efeito muito raro (até 1 em cada 10 000 pessoas) mas grave, que pode evoluir para coma. Parar o medicamento e ir à urgência.
O que é hipoglicemia
Hipoglicemia é uma glicemia igual ou inferior a 70 mg/dl. Este é o valor de alerta e de ação usado na prática clínica: abaixo dele, trata-se, e trata-se já.
O número não é arbitrário nem é o mesmo que os cortes de diagnóstico da diabetes. A glicemia de jejum considerada normal situa-se entre 70 e 99 mg/dl — os 70 mg/dl são exatamente a fronteira inferior desse intervalo. Os valores de diagnóstico da diabetes (126 mg/dl em jejum, 6,5% de HbA1c) referem-se ao extremo oposto da escala.
A diferença mais importante face à hiperglicemia é o tempo. A hipoglicemia instala-se em minutos e agrava-se depressa; a hiperglicemia leva dias a compor um quadro grave. É por isso que a hipoglicemia tem protocolo de casa e a hiperglicemia tem protocolo de consulta ou urgência.
Sintomas de hipoglicemia
Os sintomas mais frequentes são tremores, palpitações, visão turva, ansiedade, tonturas, dor de cabeça, irritabilidade, fraqueza, formigueiro na boca ou nos lábios, suores frios, fome súbita, palidez e náuseas.
Na hipoglicemia grave o quadro muda de natureza: confusão mental, amnésia e perda de consciência. Nessa fase já não é episódio para gerir em casa — é emergência.
| Fase | O que se sente | O que fazer |
|---|---|---|
| Ligeira a moderada | tremor, suores, palpitações, fome, tonturas | regra dos 15/15, com a pessoa consciente |
| Grave | confusão, amnésia, perda de consciência | nada pela boca, ligar 112 |
Um pormenor que apanha muita gente desprevenida: vários destes sintomas — palpitações, tremor, ansiedade, dificuldade de concentração — são exatamente os que a maioria das pessoas associa a «açúcar alto». São da descida, não da subida.
A regra dos 15/15, passo a passo
A regra dos 15/15 aplica-se a hipoglicemia numa pessoa consciente e capaz de engolir. Fora dessa condição, o protocolo é outro: 112.
- Ingerir 15 g de açúcar de absorção rápida — por exemplo dois pacotes ou duas colheres de sopa de açúcar dissolvidos em água, ou um sumo ou refrigerante não-dietético.
- Esperar 15 minutos. Sem comer mais nada nesse intervalo.
- Reavaliar a glicemia. Se continuar igual ou inferior a 70 mg/dl, repetir mais 15 g e esperar outros 15 minutos.
- Repetir os ciclos até a glicemia chegar perto de 100 mg/dl.
Chocolate e bolachas. Não são a primeira escolha, apesar de serem o reflexo popular mais comum: a gordura atrasa a absorção do açúcar, e o que se quer aqui é velocidade.
Refrigerante «zero». Também não serve: não tem açúcar — é precisamente o que falta neste momento. Vale a pena confirmar o rótulo antes de guardar uma lata para emergências.
A espera dos 15 minutos é a parte que as pessoas mais cortam, e é onde nasce o erro seguinte: comer sem parar durante meia hora e passar de 60 para 300 mg/dl. O açúcar ingerido leva algum tempo a chegar ao sangue.
Porque a noite é o momento mais delicado
O risco não desaparece durante o sono, e a diferença é que ninguém está a observar os primeiros sinais.
Há um fator concreto e documentado: o álcool. Em pessoas medicadas com insulina ou com secretagogos (sulfonilureias), o consumo de álcool pode aumentar o risco de hipoglicemia até 12 horas depois da ingestão. Soma-se o facto de o consumo estar muitas vezes associado a atividades menos sedentárias — sair, dançar — que aumentam ainda mais o risco.
O outro fator é o jejum prolongado. Num ensaio clínico com pessoas com diabetes tipo 2 medicadas com metformina e/ou outros hipoglicemiantes, o esquema de jejum intermitente duplicou a taxa de hipoglicemia (RR 2,05; IC 95%: 1,17 a 3,52), mesmo com redução da medicação. Não é argumento contra jejuar: é argumento para não o fazer por conta própria quando se toma medicação que baixa a glicemia.
Quem tem episódios noturnos repetidos tem assunto para consulta, não para tentativa e erro: pode significar que o esquema terapêutico precisa de ajuste.
O que ter sempre à mão
Uma lista curta, do que serve mesmo no momento.
- Açúcar de absorção rápida em dose contável: pacotes de açúcar, ou um pacote pequeno de sumo não-dietético. Contável importa — 15 g não é «um bocado».
- Glucómetro e tiras para reavaliar aos 15 minutos. Sem medir, o segundo ciclo é adivinhado. As tiras-teste são comparticipadas pelo Estado até 85% do preço máximo para pessoas com diabetes beneficiárias do SNS.
- Os números guardados no telemóvel: 112 e SNS 24 (808 24 24 24).
Quem convive de perto com uma pessoa com diabetes ganha em saber o protocolo de cor. Na hipoglicemia grave, quem age não é o próprio.
O que é hiperglicemia e quando se torna emergência
Hiperglicemia é a glicemia elevada, e os seus sintomas são sede excessiva, boca seca, urinar com mais frequência, cansaço, visão turva e dor de cabeça. Ao contrário da hipoglicemia, instalam-se de forma gradual — o que explica que tanta gente conviva com eles durante meses.
Como referência do que é normal: a glicemia de jejum situa-se habitualmente entre 70 e 99 mg/dl e a glicemia 2 horas após uma refeição é considerada normal abaixo de 140 mg/dl. A tabela completa está em que valor é considerado normal.
A hiperglicemia muito elevada e prolongada, sobretudo sem tratamento, pode evoluir para dois quadros graves. A cetoacidose diabética é mais comum na diabetes tipo 1. O estado hiperglicémico hiperosmolar é mais próprio da diabetes tipo 2 e tem mortalidade estimada até cerca de 2%. Ambos são emergências médicas.
Não publicamos aqui um valor exato de glicemia acima do qual se deve ir à urgência. A razão é simples: não encontrámos esse limiar fixado por fonte oficial portuguesa, e um número inventado nesta matéria manda pessoas erradas à urgência e deixa em casa as certas. O que serve como critério são os sinais — vómitos que não param, respiração muito rápida e profunda, confusão, sonolência —, e esses estão no bloco de emergência no topo desta página.
Que número ligar: 112 ou SNS 24
| Situação | Número | Porquê |
|---|---|---|
| Perda de consciência, convulsão, quadro de risco de vida | 112 | encaminhamento para o INEM, meios de emergência |
| Vómitos persistentes, respiração rápida e profunda, confusão | 112 | possível cetoacidose, avaliação hospitalar |
| Problema agudo sem sinais de gravidade, dúvida sobre o que fazer | SNS 24 (808 24 24 24) | triagem por telefone e encaminhamento |
| Valores repetidamente alterados, sem sintomas agudos | consulta | ajuste terapêutico, não é emergência |
O SNS 24 existe precisamente para o meio-termo: um problema de saúde agudo mas não emergente, com triagem e encaminhamento personalizado por telefone, evitando deslocações desnecessárias às urgências.
Quem tem mais risco de hipoglicemia
Nem toda a gente com diabetes corre o mesmo risco, e a diferença está sobretudo na medicação.
Insulina e secretagogos. É onde o risco é real e conhecido: insulina, sulfonilureias e meglitinidas podem baixar a glicemia abaixo do necessário.
Metformina isolada, não. A metformina, por si só, não provoca hipoglicemia. O risco só aparece quando é combinada com os fármacos acima. É informação do próprio folheto informativo aprovado e desfaz um receio muito comum — o detalhe está em o folheto da metformina explicado.
Suplementos. A berberina, usada em conjunto com metformina, sulfonilureias ou insulina, pode somar o efeito redutor da glicose e aumentar o risco de hipoglicemia. A EFSA levanta preocupação semelhante para a Gymnema sylvestre combinada com antidiabéticos autorizados. «Natural» não significa «sem interação» — o balanço de cada ingrediente está em o que os ensaios dizem sobre suplementos.
Álcool e jejum prolongado, pelos motivos descritos acima.
Isto não substitui o plano que a sua equipa lhe deu
Está descrito o protocolo publicado por fontes clínicas e institucionais portuguesas para o episódio agudo, o limiar de 70 mg/dl, os sintomas dos dois extremos e o critério de triagem entre 112 e SNS 24.
O ajuste do seu tratamento não cabe aqui. Se as hipoglicemias se repetem, o problema não se resolve com mais açúcar à mão: resolve-se a rever doses e horários com quem as prescreveu.
Porque não damos um número para a hiperglicemia nem o passo a passo do glucagon
Sem limiar numérico. Não encontrámos o corte de hiperglicemia urgente fixado por fonte oficial portuguesa. Os sinais clínicos servem melhor do que um número mal atribuído.
Sem instruções sobre glucagon. A caneta e o spray nasal de glucagon existem para hipoglicemia grave com perda de consciência e são administrados por terceiros, mas não temos ainda fonte verificada em português para escrever o procedimento passo a passo. Escrevê-lo de memória, numa emergência, seria irresponsável — quem tem prescrição de glucagon deve receber a demonstração de quem a prescreveu.
Sem doses por peso. O protocolo verificado é o de 15 g para adulto consciente. Adaptações — crianças, insuficiência renal, gravidez — são caso clínico, não regra de artigo.
Fontes utilizadas
- INEM — Hipoglicemia (procedimento perante perda de consciência) — https://www.inem.pt/2017/05/29/hipoglicemia/
- SNS 24 — Quando ligar SNS 24 ou INEM — https://www.sns24.gov.pt/servico/quando-ligar-sns-24-ou-inem/
- Dimor Diabetes — conselhos práticos sobre hipoglicemia: limiar, sintomas e regra dos 15/15 — https://www.inem.pt/2017/05/29/hipoglicemia/
- MSD Manuals (edição para profissionais, em português) — hipoglicemia e complicações agudas — https://www.msdmanuals.com/pt/profissional/dist%C3%BArbios-end%C3%B3crinos-e-metab%C3%B3licos/diabetes-melito-e-hipoglicemia/hipoglicemia
- DGS — Norma nº 002/2011, valores normais e de diagnóstico — https://normas.dgs.min-saude.pt/2011/01/14/diagnostico-e-classificacao-da-diabetes-mellitus/
- Folheto informativo de metformina (toLife) — hipoglicemia em associação e acidose láctica — https://towapharmaceutical.pt/wp-content/uploads/2024/06/FI_6_Metformina_toLife.pdf
- Corley BT et al., jejum intermitente e risco de hipoglicemia em diabetes tipo 2, Diabetic Medicine 2018 — https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/29405359/
- Associação Portuguesa dos Nutricionistas — Manual de Contagem de Hidratos de Carbono (álcool e risco de hipoglicemia até 12 horas) — https://www.spedp.pt/files/upload/paginas/manual-contagem-hc.pdf
Autor: Redação Açúcar no Sangue · como trabalhamos Publicado: 25 de agosto de 2026 · Última atualização: 25 de agosto de 2026
Nota clínica. Esta página reúne protocolos e critérios publicados por entidades portuguesas e por literatura médica. Em emergência, a decisão é de quem atende o 112 — nunca de um texto.
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