Resposta curta: as insulinas dividem-se, na prática, em dois papéis. A basal, de ação lenta, começa a atuar cerca de uma hora depois da administração e cobre as necessidades ao longo de todo o dia, normalmente numa única administração diária. A bolus, de ação rápida, começa a atuar cerca de 30 minutos depois — ou 15 minutos nos análogos ultrarrápidos — e cobre a subida de glicose provocada por cada refeição. Fechada, guarda-se no frigorífico entre 2 e 8 ºC; já em uso, pode ficar à temperatura ambiente.
Esta é uma página panorâmica. Explica a lógica dos tipos, a conservação, a comparticipação em Portugal e os medos mais comuns. O esquema concreto — as unidades, os horários — é definido pelo médico que acompanha cada caso.
O que a insulina faz no corpo
A insulina é uma hormona que o organismo produz e que abre a porta das células à glicose do sangue.
O tratamento com insulina injetável substitui, ou completa, aquilo que o corpo já não consegue produzir em quantidade suficiente.
Daí que a insulinoterapia não seja castigo nem último recurso moral. É reposição de uma hormona em falta.
A parte difícil também não é a agulha. É acertar na quantidade certa no momento certo, e isso faz-se com acompanhamento e medições.
Insulina basal: a que cobre o dia inteiro
Insulina basal é a de ação lenta ou prolongada. Começa a atuar cerca de uma hora após a administração e mantém uma intensidade mais constante ao longo do dia, muitas vezes sem pico marcado. Na maioria dos casos é administrada apenas uma vez por dia.
É habitualmente o primeiro tipo de insulina a ser introduzido na diabetes tipo 2, quando os antidiabéticos orais deixam de ser suficientes para manter a glicemia nos objetivos.
A sua função é cobrir as necessidades de fundo do organismo — as que existem mesmo entre refeições e durante a noite.
Insulina bolus: a que acompanha as refeições
Insulina bolus é a de ação rápida ou ultrarrápida. Começa a atuar cerca de 30 minutos depois da administração; nos análogos ultrarrápidos — lispro, aspart e glulisina — cerca de 15 minutos.
O objetivo é outro: cobrir a subida de glicose provocada pela refeição.
Daí que se administre antes das principais refeições, e não a horas fixas independentes da comida.
| Papel | Início de ação | Quando se administra |
|---|---|---|
| Basal (lenta/prolongada) | ~1 hora | Normalmente 1x/dia |
| Bolus (rápida) | ~30 minutos | Antes das principais refeições |
| Bolus (análogo ultrarrápido) | ~15 minutos | Antes das principais refeições |
O esquema basal-bolus
O esquema basal-bolus combina uma insulina basal — análogo lento ou insulina humana de ação intermédia, uma a duas vezes por dia — com insulina de ação curta ou análogo rápido antes das três refeições principais.
É o regime que mais se aproxima do funcionamento fisiológico normal do pâncreas. Em troca, exige mais picadas e mais monitorização da glicemia.
Na norma nacional sobre insulinoterapia na diabetes tipo 2, este esquema aparece como o passo seguinte quando as insulinas bifásicas, também chamadas pré-misturadas, já não são suficientes para atingir os objetivos.
"Começar insulina" significa que piorei?
É o medo mais comum. A resposta clínica é não.
Iniciar insulina na diabetes tipo 2 reflete a evolução natural da doença, ou a necessidade de melhor controlo. Não é falha pessoal de quem a toma.
Também não cria dependência no sentido de vício. É reposição de uma hormona que o corpo produz naturalmente, e a esta o organismo não desenvolve adição.
Quem precisa de insulina precisa dela pela mesma razão pela qual precisava antes dos comprimidos: manter a glicemia dentro de valores seguros.
Adiar o início por medo tem um custo real, porque são os anos com glicemia elevada que alimentam as complicações a longo prazo.
Como guardar insulina
| Estado | Onde e a que temperatura |
|---|---|
| Fechada (frasco ou caneta por abrir) | Frigorífico, entre 2 ºC e 8 ºC |
| Em uso (caneta ou frasco já iniciado) | Temperatura ambiente, até cerca de 30 ºC |
Regras que valem para as duas colunas: nunca congelar nem encostar ao congelador, porque a proteína degrada-se se congelar; proteger da luz solar direta e do calor excessivo.
Uma caneta em uso não precisa de voltar ao frigorífico entre administrações.
Tem, isso sim, prazo limitado depois de aberta: dias a poucas semanas, conforme o produto. O número está na bula da insulina específica e varia entre formulações — confirme-o na embalagem.
Em viagem, a lógica é a mesma: frio, sim; congelação, não.
Um saco térmico com placa de gel isolada do contacto direto resolve a maioria das deslocações de um dia.
Onde e como se administra
A insulina de uso corrente administra-se por via subcutânea, com caneta ou seringa, e existe ainda a opção de perfusão subcutânea contínua — a bomba de insulina — para os casos em que está indicada.
A técnica de administração, os locais do corpo a utilizar e a rotação entre eles ensinam-se presencialmente, com a caneta na mão, pela equipa que inicia o tratamento.
É formação prática, não conteúdo de leitura. Não é área em que uma página deva improvisar instruções.
O que uma página pode fazer é lembrar o essencial: o esquema, as unidades e os horários são definidos pelo médico, e qualquer alteração passa por ele.
Por isso aqui não há esquemas de dose, cálculo de unidades por hidratos de carbono nem instruções de técnica de injeção, e o que fica é a lógica dos tipos de insulina, as regras de conservação, o enquadramento da comparticipação em Portugal e uma resposta honesta aos medos mais frequentes de quem vai começar. O resto ensina-se ao vivo. Ajusta-se ao caso.
É a diferença entre um texto informativo e um manual que ninguém deve seguir sozinho.
"Uma unidade de insulina baixa quanto?"
Não publicamos um número, e a explicação é o conteúdo mais útil que esta secção pode dar.
A resposta é individual. O efeito de uma unidade depende da sensibilidade de cada pessoa à insulina, do tipo de insulina, do peso, do horário, da refeição e da atividade física daquele dia. Circulam regras genéricas na internet que dão a impressão de precisão universal — aplicá-las a alguém para quem não foram calculadas é a forma mais rápida de provocar uma hipoglicemia.
Quem faz esta conta é o médico ou o enfermeiro que acompanha o caso, com base no registo de glicemias da pessoa.
Precisa de saber o seu fator pessoal? É exatamente a pergunta a levar à próxima consulta. E é uma boa pergunta.
Hipoglicemia: o risco que anda junto com a insulina
A insulina é o tratamento que mais vezes baixa a glicemia abaixo do necessário. Reconhecer uma hipoglicemia e tratá-la depressa é a competência mais importante de quem a usa.
Glicemia igual ou inferior a 70 mg/dl, com a pessoa consciente e capaz de engolir: 15 g de açúcar de absorção rápida — duas colheres de sopa de açúcar em água, ou um sumo/refrigerante não-dietético —, esperar 15 minutos e voltar a medir. Se continuar em 70 mg/dl ou abaixo, repetir, até chegar perto de 100 mg/dl. Chocolate e bolachas não servem como primeira escolha: a gordura atrasa a absorção.
Sinais a conhecer: tremores, palpitações, suores frios, fome súbita, visão turva, tonturas, irritabilidade, formigueiro nos lábios; em fase grave, confusão e perda de consciência.
Pessoa inconsciente ou que não reage: não dar nada por via oral, pelo risco de engasgamento, e ligar 112 de imediato. Para um problema agudo sem risco de vida, SNS 24, 808 24 24 24.
Quanto custa: o que o Estado comparticipa
Em Portugal, os dispositivos para diabetes têm um regime de comparticipação próprio, distinto do dos medicamentos.
| Dispositivo | Comparticipação do Estado |
|---|---|
| Tiras-teste de glicemia | Até 85% do PVP máximo |
| Agulhas, seringas e lancetas | Até 100% do PVP máximo |
| Bombas de insulina (perfusão subcutânea contínua) | 100%, por regime excecional |
| Sistemas de monitorização contínua da glicose | 100%, por regime excecional |
A comparticipação a 100% de bombas e sensores vem de um regime excecional mais recente, criado pela Portaria n.º 18/2025/1, para os beneficiários abrangidos.
O peso financeiro é real: pagos do próprio bolso, estes equipamentos são caros. E muita gente que os poderia usar ainda não sabe que estão comparticipados.
Como se sabe se a dose está a resultar
Por dois caminhos que se completam. O primeiro é o registo de glicemias no dia a dia, medido com glucómetro ou com sensor contínuo, que mostra o comportamento hora a hora e deteta hipoglicemias.
O segundo é a o indicador de longo prazo, que resume dois a três meses num só número. O objetivo terapêutico geral para adultos com diabetes tipo 2 é inferior a 7%.
Mas é um alvo individualizado, conforme a idade, as complicações e o risco de hipoglicemia. Em idosos frágeis, alvos mais permissivos podem ser a escolha mais segura.
Nenhum dos dois substitui o outro: uma HbA1c bonita pode esconder oscilações grandes, e um bom dia de glicemias não descreve o trimestre.
Fontes utilizadas 7
| Documento | Fonte |
|---|---|
| SPEDM, Insulinoterapia — definição e tempos de ação da insulina basal e da insulina bolus, incluindo análogos ultrarrápidos | spedm.pt |
| Norma DGS nº 025/2011, Insulinoterapia na Diabetes Mellitus tipo 2, atualizada em 2013 (esquema basal-bolus, passagem das insulinas bifásicas, objetivo de HbA1c e individualização, enquadramento do início de insulina) | normas.dgs.min-saude.pt |
| Norma DGS nº 025/2011 (versão PDF consultada para objetivos terapêuticos) | ordemdosmedicos.pt |
| EMA — Resumo das Características do Medicamento em português de uma insulina basal comercializada em Portugal, com as regras de conservação (fechada: frigorífico a 2 ºC-8 ºC, não congelar nem colocar próximo do congelador ou de acumuladores de frio; em uso: temperatura inferior a 30 ºC, máximo de 4 semanas, protegida da luz e do calor, sem voltar ao frigorífico) | ema.europa.eu |
| SNS — regime de comparticipação de dispositivos médicos para diabetes: tiras-teste até 85%, agulhas/seringas/lancetas até 100%, bombas de insulina e monitorização contínua da glicose a 100% por regime excecional (Portaria n.º 18/2025/1) | sns.gov.pt |
| Limiar de hipoglicemia (≤70 mg/dl), sintomas e regra dos 15/15 | inem.pt |
| INEM — hipoglicemia com perda de consciência: não administrar nada por via oral, ligar 112 | inem.pt |
Autor: Redação Açúcar no Sangue · como trabalhamos
Nota clínica. Esta página é uma introdução geral à insulinoterapia. Não define esquemas, não calcula unidades e não substitui a formação prática dada pela equipa de saúde nem a bula da insulina prescrita.
Comparticipação. Regras verificadas a 25 de agosto de 2026 junto do SNS; confirme sempre o enquadramento em vigor para o seu caso.
Independência. Não vendemos insulina, canetas, bombas nem sensores, e não temos acordos com os respetivos fabricantes.
Perguntas frequentes
Qual é a diferença entre insulina basal e insulina rápida?
Qual é a diferença entre insulina basal e insulina rápida?
A basal tem ação lenta ou prolongada: começa a atuar cerca de uma hora depois e cobre as necessidades ao longo do dia, normalmente com uma administração diária.
A rápida entra em cerca de 30 minutos — 15 minutos nos análogos ultrarrápidos — e serve para cobrir a subida de glicose da refeição.
A insulina precisa de estar sempre no frigorífico?
A insulina precisa de estar sempre no frigorífico?
Só enquanto está fechada: entre 2 ºC e 8 ºC, nunca no congelador. Depois de aberta, a caneta ou o frasco podem ficar à temperatura ambiente, até cerca de 30 ºC, protegidos do sol e do calor, com o prazo de validade após abertura indicado na bula.
Quanto tempo dura uma caneta de insulina depois de aberta?
Quanto tempo dura uma caneta de insulina depois de aberta?
Varia com o produto — de dias a poucas semanas. O prazo exato está sempre indicado na bula da insulina que está a usar, e é o único número em que se deve basear.
A insulina vicia?
A insulina vicia?
Não. A insulina é a reposição de uma hormona que o corpo produz naturalmente e não gera adição. Começar insulina na diabetes tipo 2 reflete a evolução da doença ou a necessidade de melhor controlo, não uma dependência criada pelo tratamento.
Uma unidade de insulina baixa quantos mg/dl?
Uma unidade de insulina baixa quantos mg/dl?
Não existe um valor universal. O efeito depende da sensibilidade individual, do tipo de insulina, do peso, do horário e da refeição. O fator pessoal é calculado pela equipa clínica com base no registo de glicemias de cada pessoa.
O Estado comparticipa bombas de insulina e sensores?
O Estado comparticipa bombas de insulina e sensores?
Sim. Por regime excecional criado pela Portaria n.º 18/2025/1, os sistemas de perfusão subcutânea contínua de insulina e os sistemas de monitorização contínua da glicose passaram a ser comparticipados a 100% para os beneficiários abrangidos. As tiras-teste são comparticipadas até 85% e as agulhas, seringas e lancetas até 100%.
Quem toma insulina deixa de tomar comprimidos?
Quem toma insulina deixa de tomar comprimidos?
Não necessariamente. Na diabetes tipo 2, a insulina basal é frequentemente introduzida quando os antidiabéticos orais deixam de ser suficientes, e a combinação de tratamentos é decidida pelo médico caso a caso.