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Pré-diabetes: os valores e a janela que ainda está aberta

Números desta página

100–125 mg/dl de glicemia em jejum: intervalo de pré-diabetes (SPEDM/ADA)
110–125 mg/dl é o intervalo que a norma DGS chama «anomalia da glicemia de jejum»
5,7–6,4 % de HbA1c, o critério equivalente na hemoglobina glicada
140–199 mg/dl às 2 horas na PTGO: tolerância diminuída à glicose
58 % menos progressão para diabetes com estilo de vida intensivo (DPP)

Resposta curta: pré-diabetes é ter a glicemia acima do normal mas ainda abaixo do corte de diagnóstico da diabetes — glicemia de jejum entre 100 e 125 mg/dl, HbA1c entre 5,7% e 6,4%, ou glicemia às 2 horas na prova de tolerância à glicose entre 140 e 199 mg/dl, pelos critérios da SPEDM. Quase nunca dá sintomas. É a fase com maior retorno por esforço: no ensaio Diabetes Prevention Program, a intervenção intensiva no estilo de vida reduziu em 58% a progressão para diabetes em 2,8 anos de seguimento, contra 31% no braço tratado com metformina.


Quando o assunto deixa de ser pré-diabetes

🔴 Se há sede excessiva, urina muito frequente, perda de peso sem dieta ou visão turva ao mesmo tempo que um valor alterado, o quadro já não é o de pré-diabetes assintomática: é motivo para consulta rápida, porque uma glicemia ocasional ≥ 200 mg/dl com sintomas clássicos basta para diagnosticar diabetes.

🔴 Se está grávida, os critérios são outros e mais apertados: a glicemia de jejum ≥ 92 mg/dl na primeira consulta já é diagnóstico de diabetes gestacional. Não aplique a si os intervalos desta página — veja diabetes gestacional.

O que é pré-diabetes

Pré-diabetes é uma categoria de risco aumentado, não uma doença estabelecida. Significa que o metabolismo da glicose já está alterado — o pâncreas ainda compensa, mas com esforço — sem que os valores cheguem ao corte que define diabetes.

A norma nº 002/2011 da Direção-Geral da Saúde não usa a palavra «pré-diabetes»: divide esta zona em duas categorias com nome técnico próprio.

Anomalia da Glicemia de Jejum (AGJ). Glicemia de jejum igual ou superior a 110 e inferior a 126 mg/dl.

Tolerância Diminuída à Glicose (TDG). Glicemia às 2 horas na prova de tolerância à glicose oral igual ou superior a 140 e inferior a 200 mg/dl.

As duas categorias podem existir em separado. Alguém com jejum normal pode ter tolerância diminuída à glicose e só o descobre se fizer a prova com sobrecarga — é uma das razões pelas quais o médico às vezes pede a PTGO mesmo com o jejum aparentemente arrumado.

Que valores definem pré-diabetes — e porque as fontes divergem

Há aqui uma divergência real entre fontes. Mais vale conhecê-la do que tropeçar nela.

A DGS usa 110 mg/dl como limiar inferior. A SPEDM, alinhada com os critérios da ADA, usa 100 mg/dl.

Critério Jejum (mg/dl) PTGO 2h (mg/dl) HbA1c
Normal 70–99 < 140
Pré-diabetes (SPEDM/ADA) 100–125 140–199 5,7–6,4%
Zona DGS «AGJ / TDG» 110–125 140–199
Diabetes ≥ 126 ≥ 200 ≥ 6,5%

A consequência prática é toda para quem cai entre os 100 e os 109 mg/dl. Pelo critério da DGS esse valor é normal-alto; pelo critério da SPEDM/ADA já é pré-diabetes. Nenhuma das duas fontes está errada: usam cortes diferentes, e é por isso que dois artigos igualmente sérios podem dizer coisas diferentes sobre o mesmo resultado.

O que fazer com isso: levar o valor ao médico de família em vez de o classificar sozinho. Quem tem 104 mg/dl, história familiar de diabetes e perímetro abdominal elevado está numa situação clínica diferente de quem tem 104 mg/dl aos 30 anos e sem outros fatores — e é essa leitura de contexto que nenhuma tabela substitui. A tabela completa dos valores, incluindo pós-prandial, está em como se leem os números.

A pré-diabetes dá sintomas?

Regra geral, não. É precisamente essa a sua característica mais incómoda: o corpo funciona, a pessoa sente-se bem e o único sinal está numa análise que muitas vezes ninguém pediu.

Quando aparecem sintomas de glicemia elevada — sede a mais, urina frequente, cansaço marcado, visão turva —, é sinal de que os valores já subiram acima da zona de pré-diabetes. Sintomas não são o alarme desta fase; são o alarme da fase seguinte.

Encaixa nos números nacionais: em Portugal, 6,0 dos 14,2 pontos percentuais de prevalência da diabetes correspondem a casos não diagnosticados.

Se a própria diabetes passa despercebida em quase metade dos casos, a fase anterior passa ainda mais.

Quem quiser perceber que sinais valorizar quando eles existem, tem a lista em sintomas da diabetes.

Pré-diabetes é reversível?

O melhor dado disponível vem do Diabetes Prevention Program (DPP), o ensaio clínico de referência nesta matéria: 3 234 pessoas com pré-diabetes, seguidas em média 2,8 anos, distribuídas por três braços — placebo, metformina 850 mg duas vezes por dia, ou intervenção intensiva no estilo de vida com objetivo de perder pelo menos 7% do peso e fazer no mínimo 150 minutos de atividade física por semana.

Braço do DPP Redução do risco de progredir para diabetes Incidência
Estilo de vida intensivo −58% face ao placebo 4,8 casos/100 pessoas-ano
Metformina −31% face ao placebo 7,8 casos/100 pessoas-ano
Placebo referência 11,0 casos/100 pessoas-ano

Duas leituras honestas destes números.

A primeira: o estilo de vida bateu o medicamento, e por larga margem. Não é uma frase motivacional — é a diferença entre 4,8 e 7,8 casos por 100 pessoas-ano.

A segunda: redução de 58% não é «cura garantida». No braço mais eficaz continuou a haver 4,8 casos novos por cada 100 pessoas em cada ano. A pré-diabetes empurra o risco para baixo, não o apaga, e o valor volta a subir se a intervenção parar.

A metformina, refira-se, é medicamento sujeito a receita médica em Portugal, e o seu uso em pré-diabetes é decisão clínica caso a caso, não algo a pedir na farmácia — o quadro completo está em doses e efeitos da metformina.

O que comer na pré-diabetes

A resposta em duas linhas: menos açúcar livre, hidratos de carbono de absorção mais lenta e um padrão alimentar global, em vez de alimentos milagrosos isolados.

Padrão alimentar. A Associação Protectora dos Diabéticos de Portugal cita a EASD a recomendar três padrões para a diabetes tipo 2 — dieta mediterrânica, dieta nórdica e dieta flexitariana (predominantemente vegetal, sem eliminar a carne). Todos privilegiam cereais integrais, hortícolas, fruta, leguminosas e frutos secos, e reduzem carne vermelha e processada, bebidas açucaradas e cereais refinados.

Açúcar livre. A recomendação da Organização Mundial de Saúde citada pelo manual nacional de contagem de hidratos de carbono: o açúcar total — de mesa, adicionado a alimentos e bebidas, mel e xaropes — não deve ultrapassar 10% do valor energético diário, sendo o ideal abaixo de 5%, o que corresponde a cerca de 25 g por dia num adulto.

Índice glicémico. Alimentos de índice glicémico baixo (IG inferior a 55) fazem os hidratos de carbono chegarem à corrente sanguínea de forma mais lenta e contínua, o que dá maior estabilidade à glicemia. Atenção a um pormenor pouco divulgado: o IG do mesmo alimento não é fixo. Depende do estado de maturação, da quantidade de fibra e gordura, da confeção, da combinação com os outros alimentos da refeição e até da glicemia no momento em que se come.

O pequeno-almoço, em concreto. Segundo a APDP, que cita as orientações da Federação Internacional da Diabetes, esta refeição deve valer 20% a 25% das necessidades energéticas do dia e juntar hidratos de carbono com fibra, gordura insaturada e proteína.

Os três exemplos que a APDP publica, já com as gramagens, a lista do que a mesma fonte manda evitar e as refeições do resto do dia estão em o que muda à mesa.

E os suplementos «para o açúcar»?

Nenhuma das botânicas vendidas para a glicemia tem alegação de saúde aprovada pela EFSA para esse efeito. Berberina, canela, gymnema e Momordica charantia estão todas no regime transitório «on hold» desde 2012.

A exceção regulamentar é o crómio, com duas alegações aprovadas — uma delas a de contribuir para a manutenção de níveis normais de glicose no sangue.

Há um risco concreto que a publicidade nunca menciona: a berberina interage com antidiabéticos. Tomada com metformina, sulfonilureias ou insulina, pode somar o efeito redutor da glicose e aumentar o risco de hipoglicemia. «Natural» não significa «sem interações».

O balanço de cada ingrediente, com as meta-análises, está em o que foi medido em cada substância.

Quando repetir as análises

Um valor isolado alterado não define nada. A norma da DGS é explícita: numa pessoa sem sintomas, o diagnóstico não deve assentar num único valor anómalo de glicemia de jejum ou de HbA1c — tem de ser confirmado numa segunda análise, feita 1 a 2 semanas depois.

Depois disso, a periodicidade é decisão do médico: depende do resultado, da idade e dos outros fatores de risco.

O que não faz sentido é o extremo oposto. Receber um valor de 116 mg/dl, guardar o papel e voltar a fazer análises daqui a cinco anos.

Vale a pena guardar os valores anteriores. Uma glicemia de jejum que subiu de 98 para 112 mg/dl em três anos diz mais do que qualquer dos dois valores isolados — e é informação que o médico não tem se não a levar consigo.

Os intervalos são iguais para todos, a decisão sobre si não é

Ficam os intervalos oficiais das duas fontes que os publicam em Portugal, o que o maior ensaio de prevenção mediu e as recomendações alimentares de instituições portuguesas e europeias.

A decisão sobre o seu caso não está: se precisa de PTGO, se deve repetir a análise dentro de um mês ou de um ano, se há indicação para medicação. Isso depende do conjunto — idade, peso, tensão arterial, história familiar, outros resultados — e resolve-se em consulta.

Porque não encontra aqui uma ementa fechada nem um prazo de reversão

Sem plano alimentar personalizado. Não publicamos ementas fechadas com gramagens para o leitor seguir. A contagem de hidratos de carbono é feita para o peso, a atividade e a medicação de cada pessoa, e é trabalho de nutricionista.

Sem promessas de reversão. Não escrevemos que a pré-diabetes «se cura em 30 dias». O melhor resultado publicado é uma redução de 58% na progressão, obtida com perda de peso mantida e exercício regular ao longo de anos.

Sem doses de suplementos. Os ensaios usam extratos padronizados que raramente correspondem ao conteúdo do frasco à venda, e vários produtos não declaram miligramas no rótulo. Sem esse número, indicar uma dose seria inventá-la.

Fontes utilizadas

  1. DGS — Norma nº 002/2011, «Diagnóstico e Classificação da Diabetes Mellitus» — https://normas.dgs.min-saude.pt/2011/01/14/diagnostico-e-classificacao-da-diabetes-mellitus/
  2. SPEDM — Pré-diabetes — https://www.spedm.pt/pt/glandulas-e-doencas-endocrinas/pre-diabetes
  3. Diabetes Prevention Program — resultados de peso e de redução de risco, Diabetes Carehttps://diabetesjournals.org/care/article/48/7/1101/158195
  4. Observatório Nacional da Diabetes / SPD — «Diabetes: Factos e Números», 11.ª edição, novembro de 2025 — https://relatorioanualdiabetes.com/wp-content/uploads/2025/11/251103-SPD-RelatorioAnual-1.pdf
  5. Associação Portuguesa dos Nutricionistas — Manual de Contagem de Hidratos de Carbono na Diabetes Mellitus — https://www.spedp.pt/files/upload/paginas/manual-contagem-hc.pdf
  6. APDP — Importância do pequeno-almoço — https://apdp.pt/importancia-do-pequeno-almoco/
  7. APDP / EASD — padrões alimentares recomendados — https://apdp.pt/comer-melhor-viver-melhor/
  8. EFSA — Health claims (artigo 13) e botânicas em regime «on hold» — https://www.efsa.europa.eu/en/topics/health-claims-art-13

Autor: Redação Açúcar no Sangue · como trabalhamos Publicado: 25 de agosto de 2026 · Última atualização: 25 de agosto de 2026

Nota clínica. Esta página reúne critérios publicados e resultados de ensaios. Não avalia o seu caso nem substitui a consulta em que os seus valores são lidos em conjunto com o resto da sua história clínica.

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Perguntas frequentes

Que valor de glicemia é considerado pré-diabetes?

Glicemia de jejum entre 100 e 125 mg/dl pelo critério da SPEDM/ADA. A norma da DGS usa um limiar mais alto e chama «anomalia da glicemia de jejum» ao intervalo de 110 a 125 mg/dl. Nos outros exames: HbA1c 5,7% a 6,4% ou glicemia às 2 horas na PTGO entre 140 e 199 mg/dl.

A pré-diabetes tem sintomas?

Habitualmente não dá sintomas. Quando aparecem sede excessiva, urina frequente, cansaço ou visão turva, é sinal de que a glicemia já subiu para valores acima da zona de pré-diabetes e a avaliação médica passa a ser prioritária.

Dá para reverter a pré-diabetes sem medicamentos?

O ensaio Diabetes Prevention Program mediu uma redução de 58% na progressão para diabetes com intervenção intensiva no estilo de vida: perda de pelo menos 7% do peso e 150 minutos semanais de atividade física. O braço com metformina ficou nos 31%. Redução de risco não é o mesmo que garantia: no braço do estilo de vida continuaram a surgir 4,8 casos por 100 pessoas-ano.

O que devo comer ao pequeno-almoço se tenho pré-diabetes?

A refeição deve dar 20% a 25% da energia do dia e incluir fibra, proteína e gordura insaturada.

A APDP publica exemplos concretos: leite meio-gordo com pão de centeio e uma maçã pequena; iogurte magro sem açúcar com aveia e dois kiwis; ou chá sem açúcar com pão de sementes, queijo fresco e uma laranja.

Tenho 105 mg/dl em jejum. Tenho pré-diabetes ou não?

Depende do critério: pela SPEDM/ADA sim, pela norma da DGS ainda não. É exatamente a zona onde as duas fontes portuguesas divergem, e a leitura correta inclui os outros fatores — idade, peso, história familiar, restantes análises —, o que faz deste um valor para discutir em consulta e não para classificar sozinho.

De quanto em quanto tempo devo repetir a análise?

A norma da DGS obriga a confirmar qualquer valor alterado numa segunda análise 1 a 2 semanas depois, em pessoas sem sintomas. A periodicidade seguinte é decidida pelo médico consoante o resultado e os fatores de risco.

Autor: Redação Açúcar no Sangue 25 de agosto de 2026